Após a pausa do fim de semana, o julgamento do caso envolvendo a morte de Bruna Fonseca no réveillon de 2023, foi retomado na manhã desta segunda-feira (19), no Tribunal Criminal Central, em Cork, na Irlanda, com a continuidade do depoimento de uma policial e uma patologista. O acusado, de 32 anos, já havia sido ouvido na sexta-feira passada.
Ao ser ouvida, q patologista assistente do Estado, Dra. Margaret Bolster, afirmou: “A causa da morte é asfixia em decorrência de estrangulamento manual”. A patologista demonstrou no banco das testemunhas colocando a mão sobre o próprio pescoço — o polegar pressionando um lado e os dedos pressionando o outro.

“Os extensos hematomas são compatíveis com estrangulamento manual, compatíveis com uma mão comprimindo o pescoço, dedos no lado esquerdo e polegar no lado direito. Teria sido a mão direita (da pessoa que fez isso).”
Ray Boland, advogado de defesa, afirmou que, segundo o relato de Miller Pacheco, ele estava atrás de Bruna Fonseca e teria colocado o braço em volta do pescoço dela para contê-la, alegando que ela o estava agredindo. O advogado questionou se os ferimentos poderiam ter sido causados dessa forma.
A Dra. Bolster disse que esperaria encontrar um tipo de hematoma mais amplo caso a lesão tivesse ocorrido pelo uso do antebraço por trás, e não pela mão pela frente. Sobre a possibilidade, acrescentou: “Nunca diga nunca, mas, na minha opinião, isso é muito mais típico de estrangulamento manual. Na minha avaliação, trata-se de estrangulamento manual, pelo padrão dos ferimentos.”
Depoimento de Miller Pacheco à polícia
Miller disse aos policiais, em entrevista no Dia de Ano-Novo de 2023, que Bruna o estava agredindo no quarto naquela manhã, quando ele pediu que ela não fosse embora.
O acusado afirmou que teve uma visão do cachorro do casal, D’eagle, que estava no Brasil, dizendo para ele voltar para casa e que não havia salvação para ele. Miller contou que disse a Bruna naquela manhã: “Eu quero morrer”.
“Foi nesse momento que ela se levantou para ir embora. Eu pedi para ela não ir. Eu a impedi para dizer que não fosse. Ela me empurrou e me bateu. Eu me defendi. Nunca toquei nela com um dedo em seis anos… Quando ela me bateu, eu me perdi na minha cabeça. Era como se não fosse eu. E eu não sou uma pessoa agressiva. Nunca quis machucá-la.
“A depressão e o que vi naquela noite (Bruna beijando um jovem enquanto dançava na festa de Ano-Novo) despertaram raiva. Tentei imobilizá-la. Eu queria que ela parasse de lutar.
“Eu só queria que a briga acabasse. Não queria machucá-la. Nesse intervalo de segundos, eu queria que ela parasse de me bater. Ela caiu entre a cama e a mesa. Eu caí por cima dela. Tive a chance de impedi-la de continuar brigando. Fiz algo que vi na TV. Quando fiz esse movimento, ela foi parando aos poucos, mas ainda resistia.
“Chegou a um ponto em que ela parou. Eu a soltei. Eu não tinha visto que ela tinha parado de vez… Eu não quis matá-la”, disse Miller aos policiais.
Ele relatou que ligou para amigos próximos no Brasil, dizendo que queria se matar e, durante a ligação, afirmou:
“Acho que acabei matando ela.”
Questionado pelo detetive policial Padraig Harrington sobre ter levantado Bruna do chão para colocá-la na cama, Miller disse: “Eu não sabia se ela estava respirando ou não quando a coloquei na cama.”
O detetive perguntou: “Você achou mais importante arrumar o quarto do que chamar assistência médica?” Miller respondeu: “Eu não estava pensando direito.” Ele deu a mesma resposta quando questionado sobre o motivo de ter descartado um lençol do quarto em uma lixeira na rua.
O detetive Harrington disse que Miller enviou uma mensagem a um amigo próximo no Brasil por volta das 3h daquela manhã, dizendo, entre outras coisas: “Me perdoa, irmão. Me perdoa por tudo.” Miller respondeu que, naquele momento, estava pedindo desculpas ao amigo por não ter se aberto sobre sua depressão.
Miller Pacheco também afirmou: “Eu não sou esse monstro. Eu não sou essa pessoa que mata alguém que ama. Eu não sou essa pessoa.”
Durante entrevistas realizadas em 1º de janeiro de 2023 e no dia seguinte, ele disse que nunca deveria ter vindo para a Irlanda. Afirmou que Bruna deveria ter lhe dito que o relacionamento havia acabado quando ela estava em Cork e ele ainda estava no Brasil, pois assim ele poderia ter lidado com a situação com o apoio da família.
Ele também disse que teria ficado com o cachorro do casal e que o animal o ajudava muito a lidar com a depressão.
O detetive Harrington afirmou durante a entrevista: “Você explodiu de raiva. Sua obsessão doentia por ela levou à morte dessa jovem — foi um ataque.” Miller respondeu: “Eu não queria matá-la. Ninguém entende a depressão a menos que passe por ela.”
Depoimento policial
Os policiais que investigaram a morte de Bruna Fonseca, nas primeiras horas do Dia de Ano-Novo de 2023, inicialmente atenderam a relatos envolvendo uma faca. Quando um dos primeiros policiais a chegar ao local perguntou ao acusado se ele a havia esfaqueado, ele respondeu: “Não, eu a estrangulei.”
Esse depoimento foi prestado pela policial Aoife McCarthy à juíza Siobhán Lankford e a um júri composto por sete mulheres e cinco homens. O julgamento entrou na segunda semana no Tribunal Criminal Central, em sessão realizada em Cork.
Por meio de seu advogado de defesa, Ray Boland, foi informado que Miller Pacheco negou ter dito: “Eu a estrangulei”.
A policial Aoife McCarthy testemunhou que o Sr. Pacheco admitiu ter estrangulado Bruna Fonseca quando ela perguntou o que havia acontecido com a vítima.
A policial explicou que estava em patrulha móvel com o policial Peter Barber quando receberam uma chamada pouco antes das 6h do dia 1º de janeiro de 2023 para se deslocarem até um apartamento na Liberty Street, após a denúncia de duas mulheres brigando no prédio.
Eles foram ao local, não constataram nada e permaneceram por alguns minutos antes de sair. Em seguida, receberam uma segunda chamada informando que havia um homem com uma faca e uma possível fatalidade no prédio, retornando ao endereço às 6h25.
Segundo o relato, quando ela, o policial Barber e outra colega, a policial Katie Blanch, chegaram novamente ao local, havia duas mulheres e um homem do lado de fora do prédio. Ao se aproximar do homem, ele se identificou como Miller Pacheco e informou sua data de nascimento.
A policial disse que o Sr. Pacheco vestia um casaco acolchoado escuro e carregava uma mochila, motivo pelo qual foi solicitado que retirasse ambos antes de ser revistado, já que os policiais acreditavam que ele pudesse estar com uma faca.
Ela afirmou que perguntou o que havia acontecido, e ele respondeu que seus documentos estavam no casaco, que ele e Bruna haviam bebido muito, estavam embriagados, que ela o havia agredido e que ele estava se defendendo.
Eles foram acompanhados por outros colegas e subiram até o quarto após Miller Pacheco entregar as chaves aos policiais.
“Ela estava deitada na cama, com os pés voltados para a cabeceira. Eu verifiquei o pulso, não havia pulso, ela ainda estava um pouco quente, o rosto parecia inchado e os olhos um pouco saltados”, relatou.
Às 6h45, a policial afirmou que prendeu formalmente Miller Pacheco sob suspeita de agredir a mulher, causando-lhe danos, e o advertiu de que tudo o que dissesse poderia ser anotado e usado como prova.
“Ele disse ‘desculpa, desculpa’, e eu perguntei se ele a havia esfaqueado. Ele respondeu: ‘Não, eu a estrangulei’. Eu levei a mão ao meu pescoço e perguntei: ‘Assim?’ e ele respondeu: ‘Sim’”, testemunhou.
No tribunal, ela demonstrou o gesto ao júri, colocando a mão no próprio pescoço.
Questionamento da defesa
Questionada pelo advogado de defesa Ray Boland, a policial afirmou que Miller Pacheco falou com ela em inglês e, embora tivesse sotaque, ela estava convencida de que ele a compreendia, pois falou de forma lenta ao adverti-lo e questioná-lo.
O advogado de defesa afirmou, em nome do acusado, que ele não teria dito “eu a estrangulei” e que não compreendia o que os policiais diziam. A policial respondeu que, em nenhum momento, o réu disse: “No English”.
O advogado também afirmou que o acusado foi colaborativo no local e não resistiu à prisão, o que foi confirmado pela policial.
Fonte: Irish examiner













































Discussão sobre isso post